Saw - Jogos Mortais
Publicado em 02/08/06, na categoria Cinema, Filmes Favoritos

Primeiro, o decepcionante: as sinopses de "Jogos Mortais" mais a expectativa construída em torno do suspense do australiano James Wan indicavam um outro filme.
A idéia de colocar dois sujeitos desconhecidos às voltas com enigmas de conseqüências aleijatórias era muito sedutora, mas, para minha surpresa, "Jogos Mortais” é um convencional thriller de serial killer, com todos os elementos básicos de um filme mainstream do gênero.
As situações, a construção, os personagens e Danny Glover no papel de detetive, na falta de um Morgan Freeman.
Em mais de um momento, “Jogos Mortais” é derivativo de “Beijos que matam”, “O silêncio dos inocentes” e tantos outros títulos que explodiram na segunda metade dos anos 90.
Tendo isso considerado, “Jogos Mortais“, um filme independente, é admirável por conseguir melhores resultados nos mesmos truques que seus primos ricos fazem, é montado de maneira notável, bem filmado e cujo terço final revela-se satisfatoriamente dumal.
Mesmo que eu não tenha encontrado em “Jogos Mortais” o filme que me foi vendido ou aquilo que eu o imaginava ser, ele se sustenta como entretenimento com uma baita mordida.
“Jogos Mortais” é 50% da xêpa de terror feita pela Lions Gate Films no Sundance de 2004 (a outra metade foi o eu-particularmente-gosto-muito “Mar aberto”; ambos os filmes receberam tratamento publicitário de rei, os cartazes para “Jogos Mortais” são alguns dos melhores feitos em um bom tempo) e um dos títulos mais esperados pelos fãs de cinema fantástico/independente desse ano. E quando o filme começa, nós já estamos automaticamente concordando com o hype: dois sujeitos, um cirurgião (Cary Elwes) e um zé qualquer (Leigh Whannell, também o co-roteirista) acordam num banheiro pútrido, com um cadáver fazendo as vezes de decoração. Eles não se conhecem e estão acorrentados ao encanamento, distantes um do outro. Aos poucos, eles se percebem vítimas de um assassino conhecido como Jigsaw (”Quebra-cabeças”, traduzindo diretamente) que obriga as bolas-da-vez a participarem de uma versão mórbida de “Myst”: quem conseguir resolver as charadas sinistras dentro do tempo estipulado vive, enquanto quem não conseguir acaba morrendo muito mal mesmo.
Ao apresentar essa situação logo de lambuja, “Jogos Mortais” acaba criando em torno de si uma expectativa que o que se seguirá será uma espécie de “Cubo”, mas Wan estende sua trama através de flashbacks que explicarão a história de Jigsaw, o background da investigação em torno do assassino e das duas vítimas. O ritmo é quebrado em termos de construção de suspense, já que há uma espécie de desmonte na cronologia, mas, narrativamente, dá a César o que é de César. Os flashbacks são revisitados e estudados mais a fundo, sem nunca perder a lógica.
Mesmo que James Wan acabe cedendo na utilização de câmeras-rápidas e uma edição MTV, ele não abusa delas, sabe criar bastante atmosfera para manter a platéia intrigada e mostra talento na manipulação de nossa atenção. As histórias paralelas cumprem um bom trabalho em desfiar a trama, mas nunca são mais interessantes que a situação principal. Elas nunca ocultam a motivação principal: mostrar mais variantes das maquinações cruéis de Jigsaw (enervantemente criativas), justamente aquilo que a platéia mais anseia ver. Elwes, geralmente um ator regular, faz um bom trabalho, assim como Glover, mas fui especialmente surpreendido pelo estreante Whannell, uma espécie de Jason Lee barbeado, que, num papel que aparentemente serve como o representante do espectador na situação, passando pelo desespero e indignação, consegue de maneira convincente nos surpreender.
Quando a maioria dos thrillers atuais tendem a ficar mais implausíveis e fracos à medida que aproximam-se do final, “Jogos Mortais” só vai melhorando de ato a ato. Mesmo recheado de artifícios dramaticamente irritantes (SPOILER: por exemplo, uma vítima que hesita em atirar no assassino que ameaçou não só a ela como a sua filha - apenas para dar tempo para o assassino revidar - ou uma perseguição que se alonga demais), o clímax é onde o filme nos surpreende, repleto de surpresas e violência (em dado momento, afinquei as unhas na poltrona de tanto nervoso). É no terceiro ato é que toda a idéia de “Jogos Mortais” se junta e é uma bela visão, deixe-me dizer.
No todo, “Jogos Mortais” tem um conceito superior ao produto final. O filme tem um ponto de partida que diretores de curtas experimentais estão se mordendo por não terem imaginado anteriormente, mas o coração do longa-metragem é comercial. Isso não quer dizer que o filme perca o impacto; o suspense sofre algumas perdas entre tantas idas e voltas no tempo (o boneco de ventríloquo me deu uns arrepios, é verdade), mas se há uma coisa que se pode dizer de “Jogos Mortais” é: ele merece o final espetacular que tem.
“Saw” EUA, 2004. 100 mins. Direção: James Wan. Estrelando: Cary Elwes, Leigh Whannell, Danny Glover, Monica Potter, Dina Meyer, Ken Leung. Distribuidora: Lions Gate Films/ Paris Filmes. Site oficial: www.sawmovie.com
Curiosidades
- - Filme de estréia de James Wan como diretor.
- - James Wan e Leigh Wahnnell, autores do roteiro de Jogos Mortais, rodaram uma cena do filme e a usaram sempre que apresentavam o projeto a estúdios, buscando financiamento para a realização do longa-metragem.
- - Inicialmente Jogos Mortais seria lançado diretamente em vídeo nos Estados Unidos, mas após algumas exibições-teste se decidiu por lançar o filme nos cinemas.
- - O diretor James Wan teve que retirar algumas cenas de Jogos Mortais para que ele obtivesse uma censura mais branda nos Estados Unidos, permitindo a entrada de menores de 17 anos.
- - Foi rodado em apenas 18 dias.
- - Foi o filme de encerramento do Festival de Toronto.
Ficha Técnica
- Título Original: Saw
- Gênero: Terror
- Tempo de Duração: 102 minutos
- Ano de Lançamento (EUA): 2004
- Site Oficial: www.jogosmortais.com.br
- Estúdio: Evolution Entertainment / Saw Productions Inc.
- Distribuição: Lions Gate Films Inc. / Paris Filmes
- Direção: James Wan
- Roteiro: Leigh Whannell, baseado em estória de James Wan e Leigh Whannell
- Produção: Mark Burg, Gregg Hoffman Oren Koules
- Música: Charlie Clouser
- Fotografia: David A. Armstrong
- Desenho de Produção: Julie Berghoff
- Direção de Arte: Nanet Harty
- Figurino: Jennifer L. Soulages
- Edição: Kevin Greutert
- Efeitos Especiais: Title House Digital
Elenco
- Leigh Wahnnell (Adam)
- Cary Elwes (Dr. Lawrence Gordon)
- Danny Glover (Detetive David Tapp)
- Ken Leung (Detetive Steven Sing)
- Dina Meyer (Kerry)
- Mike Butters (Paul)
- Paul Gutrecht (Mark)
- Michael Emerson (Zep Hindle)
- Benito Martinez (Brett)
- Shawnee Smith (Amanda)
- Mackenzie Vega (Diana Gordon)
- Monica Potter (Alison Gordon)
- Ned Bellamy (Jeff)
- Alexandre Bokyum Chun (Carla)
- Tobin Bell (John)
- de Zeta filmes

eu curto muito o saw
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